Tempo de ecrã: como encontrar um equilíbrio?

Atualizado: 23 de fev. de 2021

A última década tem sido marcada por uma evolução tecnológica exponencial, com o aparecimento e uso recorrente do pequeno ecrã. Com ele surgiram também inúmeras aplicações e jogos para todas as idades e interesses, e o tempo que lhes cedemos é, inegavelmente, significativo.


Do mesmo modo, também as crianças estão familiarizadas com gadgets em idades cada vez mais precoces – inclusivamente, a literatura aponta para a introdução do pequeno ecrã em idades inferiores a dois anos.


Por ser tão intuitivo e oferecer inúmeras atividades em que a criança tem a possibilidade de obter um reforço positivo imediato. um tablet é, muitas vezes, o brinquedo preferido das crianças. Por permitir manter a criança ocupada e potenciar aquisições cognitivas, é muitas vezes, o brinquedo preferido dos adultos.


Contudo, importa lembrar que, do ponto de vista motor fino, brincar com recurso a dispositivos de ecrã tátil, apenas requer ações simples como o toque, toque duplo, pressionar, agitar, arrastar ou ampliar. Competências como pinças finas, tríades e manipulação dentro da mão, fundamentais para uma adequada motricidade fina, são pouco exploradas. O desenvolvimento motor global, a interação com pares ou a promoção de diferentes sistemas sensoriais, são também áreas de desenvolvimento fundamentais para a criança – as principais, a base da pirâmide de aprendizagem – que um tablet não é capaz de oferecer.


A verdade é que dificilmente conseguiremos restringir o acesso das crianças à evolução tecnológica, já que grande parte da informação que nos chega é visual. Sobretudo durante os períodos de confinamento, é natural que haja uma maior procura, até porque grande parte das famílias encontra-se em teletrabalho, e um tablet pode ser um grande aliado.


Se por um lado existem estes dispositivos que captam a atenção das crianças, por outro lado, surge a preocupação de lhes proporcionar um tipo de Brincar mais ativo e espontâneo. Com isto, é natural que se torne difícil para os pais, sobretudo quando falamos em famílias cuja gestão de tempo é também desafiante, encontrar um meio termo.


Eis algumas sugestões que podem ser adotadas na rotina diária com a criança:

1. Observe os seus hábitos. A literatura diz-nos que o tempo que os pais utilizam estes dispositivos para seu próprio uso é o maior preditor do tempo que a criança passará a utilizá-los também - até porque os adultos são o modelo para a criança. Inicie este processo por si, analisando quanto tempo despende em frente a um ecrã sem que seja produtivo. Posteriormente será mais fácil colocar-se no lugar da criança.


2. Quanto mais tarde melhor. A literatura sugere que estes dispositivos não devem ser introduzidos em idades inferiores a dois anos. Até a esta idade, o desenvolvimento da criança é como um comboio imparável, numa odisseia maravilhosa de grandes descobertas e aquisições, do ponto de vista motor. Procure dar ênfase a um tipo de brincar ou de atividades que potenciem este desenvolvimento.


3. Antes de dormir pode não ser um bom timing. Vários estudos apontam para o efeito negativo da exposição da criança ao ecrã até duas horas antes de dormir, já que pode interferir com a produção de determinados neurotransmissores e consequentemente afetar a qualidade do sono. Dê preferência a um banho relaxante para a criança, uma música calma, ao embalo ou a uma história, por exemplo.


4. Observar os alimentos, não o ecrã. Por vezes, pode ser muito tentador utilizar o tablet ou o smartphone à hora da refeição, quer para agilizar o processo, como para torná-lo menos penoso para a criança ou evitar uma birra se estivermos num local público. Contudo, a alimentação não tem que ser penosa para a criança e deve ser um processo consciente. Se temos um pequeno ecrã a roubar a atenção da criança, muito mais difícil será para ela usufruir do sabor alimentos, conhecer a sua textura, estar consciente dos movimentos da mastigação e deglutição, ou da sua própria autonomia. Aproveite a hora da refeição para envolver a criança consciente e ativamente no processo, evite o uso do tablet à hora da refeição.


5. Limitar o tempo de ecrã. Como referido anteriormente, o confinamento veio aumentar exponencialmente o recurso aos gadgets por parte das famílias, quer pela ausência de outras atividades como pelas aulas online. Como consequência, o número de horas recomendado pela Associação Americana de Pediatria dificilmente será cumprido. Ainda assim é importante ter em mente algumas linhas orientadoras, nomeadamente:


- Até aos 18 meses deve evitar-se a exposição dos bebés ao pequeno ecrã – salvo exceções como videochamadas;


- Dos 18 aos 24 meses, limitar a 30 minutos diários mediante a supervisão e acompanhamento parental, de forma a auxiliar a criança na compreensão dos conteúdos visualizados;


- Dos 2 aos 5 anos, limitar o tempo de ecrã a uma hora por dia, selecionando os conteúdos adequados à idade desenvolvimental e interesses da criança, sendo que o adulto deve supervisionar e monitorizar estes momentos;


- Dos 6 aos 12 anos, definir juntamente com a criança o tempo e o tipo de conteúdos a que a criança tem acesso, procurando que os mesmos não substituam as horas de sono, de brincar ativo, a atividade física ou o tempo destinado ao estudo;


- A partir dos 12 anos, procure partilhar e demonstrar interesse. Isto é, não só supervisionar o tempo de ecrã, como também envolver-se no processo. Faça questões ou proponha atividades em conjunto. Além de permitir uma maior comunicação entre ambos pode ajudá-los a definir em conjunto o tempo que despendem – pode até ser um desafio interessante em família!


Cada família tem dinâmicas e necessidades diferentes. As recomendações são linhas orientadoras para facilitar eventuais desafios que possam surgir. Nem sempre é fácil não ceder à tentação de solucionar determinado imprevisto com um tablet e evitar, assim, um momento de stress. Acontece a todas as famílias e é importante compreender que há espaço para a aprendizagem. O mais importante é estarmos conscientes de que as crianças necessitam de Brincar livremente, de se envolverem na rotina diária, e de manterem a sua atenção no momento presente.